Novembro: mês do filme nacional

Ai, outra vergonha! Só soube hoje que desde o dia 10/11 tá rolando aquela campanha que tem todologo_promocao ano: a do mês do filme nacional! Sinto-me culpada por não ter visto isso antes, afinal sou jornalista, leio muita coisa, procuro ser muito bem informada, enfim… Mas também tenho que criticar: não vi muita divulgação, nem na TV, nem na Internet, nem no rádio. A assessoria deles deveria ter espalhado os releases por todos os cantos, mas TODOS mesmo!

Os cinemas que aderem a essa campanha durante o mês de novembro cobram R$4,00 inteira e R$2,00 meia-entrada, de segundas a quintas-feiras, por ingressos de diversos filmes nacionais. Os melhores espaços aderem, inclusive os pops Cinemark, Multiplex e Artplex (pelo menos são pop em São Paulo)…

É uma pena durar pouco, porque além de ser de segunda a quinta começou dia 10 e acabará dia 27.

Filmes como Romance, Boas de Papel, Ensaio sobre a Cegueira, A Casa da Mãe Joana e Última Parada 174, entre muitos outros, estão em cartaz. Vale a pena correr semana que vem, pois a quinta-feira desta já está no fim.

Mais informações no site da Ancine.

Assista ao vídeo da campanha

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Todo brasileiro é um pouco Édipo

Hoje vou postar um texto que escrevi em abril de 2003, no auge dos meus estudos clássicos, na faculdade de Letras. Eu o escrevi para o extinto jornalmack.hpg.com.br, um interessante projeto encabeçado por colegas de classe do jornalismo.  O site consistia em colunas escritas periodicamente pelos alunos, abordando temas diversos. Este texto foi a minha primeira contribuição…

Todo brasileiro é um pouco Édipo

Entre tantas heranças greco-romanas…

Édipo Rei é uma tragédia grega modelo, a mais famosa e considerada por Aristóteles em sua Arte Poética, a mais perfeita. Foi encenada por volta do ano 420 a.C., quando Sófocles, seu autor, tinha aproximadamente 76 anos, o que significa que é uma obra da maturidade.  O mito de Édipo é uma antiga fábula da tradição grega (já apareceu também na Odisséia). A peça é uma elaboração trágica deste mito.

A história tem início quando Labdaco (avô de Édipo) entre tantos filhos considera apenas Laio (pai de Édipo) seu herdeiro. Banido pelos irmãos, Laio é expulso e consegue se abrigar na casa de um nobre chamado Pêlops. Neste lugar, se envolve com a filha do nobre, Crísipo, e na tentativa de recuperar o trono (de Tebas) que havia perdido para seus irmãos, em vez de agradecer Pêlops, rapta sua filha. Como castigo o oráculo prevê que Laio será morto por seu filho que se casará com sua esposa.

No futuro, Crísipo sai do caminho de Laio que acaba se casando com Jocasta, com quem tem um filho. Mesmo tendo dificuldade para engravidar, sabendo da maldição do oráculo, Jocasta ordena que furem os pés da criança e prendam uma corda em seus calcanhares para que morra de inanição (segundo a etimologia Édipo, Oidípous- em grego, significa “oidos” homem, “pous” de pés inchados). Porém, o servo encarregado de deixar a criança sem comer, sente pena e o leva a um pastor que entrega o bebê à uma família de reis no reino vizinho de Corinto.

Um dia, Édipo e Laio se cruzam em uma floresta limítrofe entre os reinos e discutem para ver quem vai passar primeiro pelo estreito caminho (dizem que esta foi a primeira briga de trânsito da história), durante o incidente Édipo mata Laio. Ainda no decorrer de sua viagem, Édipo encontra a Esfinge que lhe pergunta qual é o animal que pela manhã se locomove com 4 patas, à tarde com 2 e à noite com 3, e Édipo desvenda o enigma, respondendo que é o HOMEM, pois quando criança engatinha (4), quando adulto caminha (2) e quando idoso usa bengala (3). A cidade de Cadmos, no reino de Tebas, é tomada por uma peste e encontra na derrota da Esfinge um novo rei, Édipo que como prêmio se casa com a reinha, Jocasta.

Tido como um homem sábio, o novo rei é considerado apto para encontrar o assassinato do monarca de Tebas. A partir daí começa a semelhança conosco, o povo brasileiro. Calma! Não estou afirmando que temos propensão a matarmos o pai para ficarmos com a mãe! Édipo compra a causa dos habitantes do reino, chamando-os em tom paternal de “meus filhos”, e sem provas ordena a execução de muitos inocentes. Assim somos nós, enxergamos que nossos problemas estão sempre nos outros, mesmo que estes, na maioria das vezes, sejam inocentes.

Na tragédia, Édipo toma ciência de que ele é o assassino (anagnórisis=reconhecimento), o que provoca a catarse (purificação) através do abalo e da piedade provocados pela ações cometidas (matar o pai e se casar com a mãe) sem o conhecimento de quem as pratica (peripécia), dando os moldes de perfeição à obra. Há aí a aquisição de um saber de si mesmo e do mundo, só que o preço deste saber é a cegueira (Édipo se cega como tentativa de não ver o que o destino lhe reservou).

No Brasil, antes de sairmos julgando a tudo e a todos, antes de culparmos os governantes, os vizinhos, enfim, os OUTROS pela existência dos nossos problemas que poderiam, muitas vezes, serem resolvidos por ações NOSSAS, preferimos acusar o outro, nos falta adquirirmos o saber de nós mesmos para alcançarmos um saber maior.

Ah, que maravilha é ser brasileiro!

Sensacional este texto que achei no final de um guia com restaurantes de Campinas. Marcelo Dias fala exatamente tudo aquilo que desejamos falar quando voltamos de uma viagem pela Europa, me identifiquei muito e acredito que seja quase unânime ter isto tipo de reação diante da culinária gringa.

Apesar de todos os problemas que nosso país tem, ele é sem dúvida o que apresenta a cozinha mais variada, a maior fartura e qualidade muito superior. Vale a pena ler, é longo, mas vale a reflexão!

Feliz por ser brasileiro

Bom, você acorda, abre a janela e pimba! Lá vem uma bala perdida. Como aquela que pegou o menininho jogando bola em um clube de luxo do Leblon, ou a que acertou o músico famoso e o colocou numa cadeira de rodas. Se escapa do teste da janela, abre o jornal e o que vê de notícia é guerra entre traficantes, é rebelião em presídio, gente passando mal em fila de hospital público, corrupção política e desemprego. Então a gente se pega pensando se vale a pena continuar por aqui, se não seria mais lúcido deixar pra trás esse amontoado de desgraças e tentar uma vida num país qualquer de primeiro mundo, onde pessoas andam tranqüilas pela madrugada e os carros param para os pedestres.

Há, porém, milhares de argumentos que nos fazem sentir orgulho desse canto de mundo tão cheio de problemas. A cordialidade, alegria e simpatia do nosso povo, o clima maravilhoso, a inexistência de catástrofes naturais, as paisagens mais lindas que o cara lá em cima foi capaz de criar. Eu ainda fico com uma razão que talvez nem passe pela cabeça de muitos: a comida brasileira. É, ainda tem milhões que passam fome em solo tupiniquim, mas definitivamente não se encontra nesse mundão de meu Deus lugar onde comer seja tão bom e tão barato quanto no Brasil especialmente em São Paulo, verdadeiro templo da pujança e variedade gastronômica.

Acabo de retornar de uma viagem à Europa, onde rodei cerca de oito mil quilômetros. Foram treze nações diferentes, vinte e três cidades e uma imensa variedade de comidas típicas. De comum entre eles, só o preço absurdo, a quantidade limitadíssima e a irritante falta de tempero. “Ah, mas como você pode dizer um absurdo desses, não passou pela França?” Passei. Passei e me frustrei com um macarrãozinho almoçado em plena avenida litorânea de Cannes, e também com a porcaria de um café da manhã com brioches e croissants em Paris. Dito assim parece lindo: brioches e croissants. Mas vocês acham que eles vêm recheados de presunto e queijo, ou de requeijão e catupiry como os daqui? Necas. E custam os olhos da cara, fortuna mesmo, coisa de mais de cinco reais e um trocinho de nada. Você termina a refeição e tá morto de fome, e o que te sobra são os dois vazios: o da barriga e o do bolso.

“E a Itália? A terra da pizza, do spaguetti, e blá, blá, blá”. Olha, eu estive em Milão, que não é, digamos, o paraíso dos econômicos mas tirando um sorvete espetacular que eu provei, nem sombra do que se tem aqui. Em que lugar se arrebenta de comer com quinze euros, ou quarenta reais?

E eu fui a um dos mais recomendados pelos locais, hein? Pois o que provei foi uma massinha branca, com molhinho ao sugo, bem chinfrim. Deu pra enganar, mas dizer que comi feito sultão, nem pensar. Duvido que um gringo entra num restaurante brazuca indicado por um brasileiro como eu fiz e não sai satisfeitíssimo, ainda que se trate de um boteco de esquina. Ah, a Pizza? Quatro queijos, mas feita só com dois. Massa grossa, pomarolla, queijo ralado e dois tecos de provolone. E assim foi na Inglaterra, onde só se come peixe e fast food; na Holanda, em que o menu principal é batata e maionese (o que tem de gente comendo isso é um absurdo); na Espanha das Paellas e em todo canto onde passei. Experimentei goulash tcheco, degustei o wurst alemão com mostarda e… E o que eu tinha era saudade do meu arroz e feijão com ovo frito e salada de cebola, do churrasco maravilhoso de maminha e contra-filé, da massa ao molho branco e do lanche suculento que apenas meus conterrâneos são capazes de fazer.

É, eu sou do país onde se senta na mesa e se come sem pudor, à vontade, até o ponto em que nem consegue levantar de tão satisfeito. Sou do país onde, o tempero bate na língua e escorrega, e dança e dá um prazer tão grande que a gente chuta o regime e pensa que não dá para ser feliz sem aquilo. Sou do país onde, quando a gente resolve dar uma de burguês gasta menos de 30 contos e come melhor que o marajá do Sri Lanka (se bem que eu nem sei o que comem os marajás do Sri Lanka). Faz o seguinte: agora, imediatamente, abra a bebida que você mais gosta, prepare ou peça o prato que mais ama no mundo e se empanturre. Goze a alegria de poder usufruir com fartura da obra divina. Sinta a felicidade contida em uma garfada de carne, na mordida do lanche suculento ou no simples ato de enrolar o macarrão. Use e abuse do sushi, do tabule, do strogonoff, da feijoada e do universo infindável de comidas típicas que se encontra de norte a sul desse chão verde amarelo.

Aproveite até a hora de pagar, pois ninguém mais pode pagar tão pouco por comida tão boa. Por um minuto que seja, esqueça-se do Senado, da Previdência, de multas de trânsito. E feche os olhos, mastigue devagar, engula e diga bem alto:
“Ah, que maravilha é ser brasileiro!”.

Marcelo Dias
Revista Diskfácil Campinas